terça-feira, 23 de novembro de 2010

textos trabalhados durante o curso identidade,trabalho.

Menga Lüdke & Luiz Alberto Boing





CAMINHOS DA PROFISSÃO E DA
PROFISSIONALIDADE DOCENTES

MENGA LÜDKE*
LUIZ ALBERTO BOING**


RESUMO: Este texto discute a questão da precarização do trabalho
docente, tendo como pano de fundo o conceito de profissão. São
trazidas contribuições de autores que se dedicam ao estudo da for-
mação e do trabalho docentes, especialmente as que focalizam os te-
mas da profissionalização do magistério, da identidade e socialização
profissionais, das competências, da profissionalidade, do profissio-
nalismo, do desenvolvimento profissional e do saber docente. Procu-
ramos relacionar esses temas com a situação do magistério em nosso
país, hoje, levando em conta a introdução das TIC, a parceria e a au-
tonomia do professorado.
Palavras-chave: Trabalho docente. Profissão docente. Desenvolvimento
profissional. Profissionalidade. Identidade profissional.

WAYS OF   THE TEACHING     PROFESSION    AND PROFESSIONALITY
ABSTRACT: This paper discusses the precarious situation of teachers’
work nowadays against the background of the concept of profession.
The theoretical contributions of authors focusing on teacher educa-
tion and professional activity are discussed, particularly with regard to
such issues such as the professionalisation of teaching, teachers’ profes-
sional identity and socialization, competences, professionality, profes-
sionalism, professional development and teacher knowledge. It tries to
relate these issues to the current situation of the teaching profession in
Brazil, taking into account the introduction of TIC’s, and the impor-
tance of partnership and teacher autonomy.
Key words: Teacher’s work. Teaching Profession. Professional develop-
ment. professionality. Professional identity.


*      Professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO).
E-mail: menga@edu.puc-rio.br
**    Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO).
E-mail: Boeing@openlink.com.br




Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1159-1180, Set./Dez. 2004
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>


1159




Caminhos da profissão e da profissionalidade docentes


1. Questionando a profissão docente

ropomos discutir o tema da precarização do trabalho dos profes-
sores no Brasil à luz de algumas das contribuições teóricas que
podem ajudar a entender um pouco melhor a complexa situação
desse grupo profissional em nossos dias. Provavelmente, levantaremos
questões mais numerosas que as possíveis respostas encontradas, mas pro-
curaremos oferecer noções e idéias que consideramos oportunas para a
discussão da questão, a partir da contribuição de pesquisas e estudos dis-
poníveis.
Tal como aparece hoje, a “profissão” docente exibe, mesmo aos
olhos do observador comum, sinais evidentes de precarização, visíveis pela
simples comparação com datas passadas. À parte a nostalgia, que em ge-
ral valoriza mais o que já passou (“a minha escola”, “a minha professo-
ra”...), não é difícil constatar a perda de prestígio, de poder aquisitivo,
de condições de vida e sobretudo de respeito e satisfação no exercício do
magistério hoje. Todas as vezes que nos lastimamos ao constatar o
“declínio da profissão docente” acabamos por nos voltar, em última ins-
tância, ao fator econômico, que se encontra na base do processo de “de-
cadência do magistério”, com o concurso, por certo, de outros fatores a
ele agregados. Há 30 ou 40 anos, o salário do professor, ou melhor, da
professora primária, representava garantia de vida digna para a “profissi-
onal” celibatária, ou uma ajuda considerável no orçamento familiar das
casadas. Mas, já naquela época, havia um contingente de normalistas que
não sonhavam mais em se tornar professoras, embora estivessem num
curso de preparação para o magistério. Eram as moças mais “modernas”,
como mostra o estudo clássico de Joly Gouveia (1970).
Um estudo de Schaffel (1999), feito muito tempo depois, mas
focalizando professoras formadas nas décadas de 30, 40, 50 e 60 do
século XX, traz revelações interessantes a respeito das “profissionais” do
magistério. Como o estudo foi feito a partir de entrevistas, a pesquisa-
dora pôde sentir, no contato com as entrevistadas, a importância atri-
buída por todas, sem exceção, ao exercício do magistério, para o qual
se declaravam muito bem preparadas. A instituição responsável por esse
preparo era o Instituto de Educação do Rio de Janeiro, entidade de
grande prestígio na cidade, então capital do país, única via de prepara-
ção de professoras, cuja entrada era protegida por severa seleção. Talvez




1160


Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1159-1180, Set./Dez. 2004
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>




Menga Lüdke & Luiz Alberto Boing


essa seleção estrita tenha sido um dos fatores que contribuíram para o
sucesso do curso, o qual levaria (levou, no depoimento das entrevistadas)
um contingente de jovens estudantes a se sentirem muito bem pre-
paradas e seguras para o desempenho de sua “profissão” docente.
Outro fator, assinalado por Mediano (1988), em estudo realiza-
do sobre o próprio Instituto de Educação, embora em período bem
posterior, é a especificidade e a exclusividade da instituição, ou melhor,
do curso normal para a preparação do professor para o ensino funda-
mental. Talvez o antigo curso normal, que tão bons serviços prestou à
formação de professores em nosso país, soubesse lidar com o binômio
teoria-prática e com o componente técnico dessa formação de uma for-
ma bem-sucedida, o que ainda não conseguimos fazer em nossos cur-
sos de licenciatura, nem mesmo nos de pedagogia.
De que profissão estamos falando quando tratamos do magisté-
rio? Hoje, sua preparação pode ser feita em diferentes instituições for-
madoras, até mesmo de níveis de ensino diferentes. Assim, convivem
agora os cursos oferecidos pelas universidades, como os de pedagogia e
de licenciatura, o curso normal superior, dentro dos institutos superi-
ores de educação, e ainda o antigo curso normal, em nível médio. Essa
é apenas uma das dificuldades que se levantam quando tentamos en-
tender o magistério como uma profissão.
O contato com a literatura já vasta sobre o tema permite-nos, ao
mesmo tempo, perceber características mais ou menos consensuais en-
tre os especialistas no assunto, quando se trata de conceituar uma pro-
fissão, mas também certos traços quase incompatíveis, ao tentarmos
aplicar esse conceito ao magistério. Entre os vários estudiosos, destaca-
se Bourdoncle (1991 e 1993), com dois artigos que, numa visão ao
mesmo tempo histórica e sociológica, desvelam o panorama no qual se
vem desenvolvendo o grupo ocupacional dedicado ao magistério ao lon-
go dos tempos. O autor traz à tona as dificuldades de conceituação do
que seja uma profissão, trabalhando, sobretudo, com a produção fran-
cesa e anglo-saxônica a esse respeito. No texto de 1991 ele discute a
contribuição de vários autores que procuraram identificar os atributos
essenciais dos comportamentos profissionais. Entre outros, Cogan &
Barber concordam em quatro critérios comuns a todas as profissões: a)
uma profunda base de conhecimentos gerais e sistematizados; b) o in-
teresse geral acima dos próprios interesses; c) um código de ética con-




Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1159-1180, Set./Dez. 2004
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>


1161




Caminhos da profissão e da profissionalidade docentes


trolando a profissão pelos próprios pares; e d) honorários como contra-
prestação de um serviço e não a manifestação de um interesse pecuniário.
Goode, depois de examinar cerca de 15 características, reduziu-as a duas
dimensões fundamentais: um corpo de conhecimentos abstratos e um
ideal de serviço. Por fim, Maurice afirma que só existe um consenso acer-
ca dos atributos comuns a todas as profissões: a especialização do saber
(Bourdoncle, 1991).
Ao lado da contribuição de Bourdoncle, gostaríamos de trazer
para a discussão alguns pontos específicos do subsídio de dois outros
autores franceses, cujas pesquisas nos parecem muito sugestivas para a
reflexão sobre o tema da precarização do trabalho docente. A primeira
está ligada à produção de Isambert-Jamati (1997), ao longo de 40 anos
de pesquisa sobre a formação e o trabalho de professores. A segunda
refere-se ao conjunto de pesquisas efetuadas por Claude Dubar no cam-
po da socialização profissional, ainda que não se dedique especificamen-
te ao magistério (Dubar, 1991/97, 1998 e 2002).
No caso de Viviane Isambert-Jamati, trata-se da idéia de “despro-
fissionalização” do magistério, apresentada por ela em um curso para
alunos de pós-graduação, ministrado em parceria com Lucie Tanguy
(Isambert-Jamati & Tanguy, 1990). Ela lançou a idéia de que, possi-
velmente, tenha havido um recuo, um retrocesso no processo de
profissionalização dos professores na França, uma “desprofissionali-
zação”. Vamos examinar as suas principais razões para levantar tal hi-
pótese e tentar visualizar como elas se refletem, ou não, na situação de
nossos professores.
Tratando especificamente dos instituteurs, isto é, dos professores
primários, ou, seguindo a terminologia atual, professores do ensino fun-
damental em suas séries iniciais, a autora propõe uma série de caracterís-
ticas que vão no sentido de uma profissionalização, e outras que vão no
sentido inverso.
No sentido positivo alinham-se o sentimento de responsabilida-
de sobre um serviço, uma missão, mesmo se o tom sagrado da vocação
tenha desaparecido; a busca de uma formação em “psicopedagogia” e
de uma experiência, como representando uma competência própria de
especialistas da infância; a diminuição do recrutamento dos sem-for-
mação; o aumento rápido do número de anos de estudo; e a tendência
a se especializar, a dividir o trabalho entre francês, ciências etc.




1162


Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1159-1180, Set./Dez. 2004
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>




Menga Lüdke & Luiz Alberto Boing


No sentido inverso estão: a formação feita por um grupo de ou-
tro meio, o que diminui a autonomia do grupo profissional; a remu-
neração considerada muito abaixo de sua qualificação; a diversidade das
formações e de experiências de cada um, inclusive profissional; a
multiplicidade de vias de formação, sacrificando o aspecto globalmen-
te socializador; e a dessindicalização.
Tratando-se dos professores do secundário, no sentido da
profissionalização, hoje como ontem há: a formação longa, como nor-
ma; a boa regulamentação da profissão com uma seleção severa, por
concurso de entrada a cargo de “colegas” do ensino superior, responsá-
veis também pela formação; a grande autonomia na escolha dos méto-
dos e programas; a tendência a ir para as classes mais elevadas, nas
quais os saberes ensinados são mais avançados; a existência de associa-
ções de especialistas, que confirma a concentração nas áreas de conhe-
cimento; a palavra de ordem sindical de um ensino “de alto nível”; e
uma tomada de distância com relação aos professores primários.
No sentido inverso ao da profissionalização, a autora esclarece
que vai reportar-se aos anos de 1930 a 1955, aproximadamente, como
momento de uma “profissionalização máxima”. Em comparação com
esse período, observa-se que: tornando-se mais numerosos, os professo-
res do secundário não constituem mais uma pequena elite; entre eles
há uma extrema diversidade de culturas e de formação; pelo fato de o
público ter crescido muito e boa parte dos alunos ter mal adquirido as
bases do ensino elementar, muitos professores secundários têm o senti-
mento de não cumprirem aquilo para o que foram formados; aumenta
a distância com relação aos professores do ensino superior, cuja proxi-
midade contribuía à dignidade do ofício; há o sentimento de serem
remunerados muito abaixo de sua qualificação, com relação a outros
“quadros” (do magistério); apesar disto, a proporção de adesões a um
sindicato diminuiu muito; alguns dos mais jovens professores, como
os do primário, vêem o ensino secundário apenas como uma fase de
sua vida; e eles também, mais do que há 40 anos, acentuam sobretudo
o que está fora da sua vida profissional: a atividade docente não é tudo
em sua vida, particularmente entre os mais jovens.
As autoras, entretanto, apresentam algumas restrições importan-
tes de sua análise. A primeira refere-se ao próprio uso da noção de
“profissão”, bastante útil para uma análise sociológica, contanto que se
respeitem seus limites.




Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1159-1180, Set./Dez. 2004
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>



1163



   GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL

                                          SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO

      SUBSECRETARIA DE GESTÃO PEDAGÓGICA E INCLUSÃO EDUCACIONAL
   ESCOLA DE APERFEIÇOAMENTO DOS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO




Curso Profissionais da Educação: identidade e trabalho
Duas escolhas
”Luis é o tipo de cara que você  gostaria de conhecer”.
 “Ele estava sempre de bom humor e sempre tinha algo  de positivo para dizer”. 
Se alguém lhe perguntasse como ele estava, a  resposta seria logo:
    “Ah.. Se melhorar, estraga”.Ele era um gerente especial em um restaurante, pois  seus garçons o seguiam de restaurante em restaurante apenas pelas suas atitudes.  Ele era um motivador nato.
   Se um colaborador estava tendo um dia ruim, Luis  estava sempre dizendo como ver o lado positivo da situação. Fiquei tão curioso com seu estilo de vida que um dia  lhe perguntei:   “Você não pode ser uma pessoa positiva todo o tempo”.   
“Como faz isso” ? Ele me respondeu:  “A cada manhã, ao acordar, digo para mim mesmo”:   “Luis, você tem duas escolhas hoje:   Pode ficar de bom humor ou de mau humor.  Eu escolho ficar de bom humor”.Cada vez que algo ruim acontece, posso escolher  bancar a vítima ou aprender alguma coisa com o ocorrido.   Eu escolho aprender algo.    Toda vez que alguém reclamar, posso escolher aceitar  a reclamação ou mostrar o lado positivo da vida.   Certo, mas não é fácil – argumentei.   É fácil sim, disse-me Luis. A vida é feita de escolhas.   Quando você examina a fundo, toda situação sempre  oferece escolha.   Você escolhe como reagir às situações.   Você escolhe como as pessoas afetarão o seu  humor. É sua a escolha de como viver sua vida.   Eu pensei sobre o que o Luis disse e sempre lembrava  dele quando fazia  uma escolha. Anos mais tarde, soube que Luis um dia cometera um  erro, deixando a porta de serviço aberta pela manhã. Foi rendido por assaltantes. 
Dominado, e enquanto tentava abrir o cofre, sua mão  tremendo pelo nervosismo, desfez a combinação do segredo. Os ladrões entraram em pânico e atiraram nele.   Por sorte foi encontrado a tempo de ser socorrido e  levado para um hospital. Depois de 18 horas de cirurgia e semanas de  tratamento intensivo, teve alta ainda com fragmentos de balas alojadas em seu corpo.  Encontrei Luis mais ou menos por acaso. Quando lhe perguntei como estava, respondeu:    “Se melhorar, estraga”.    Contou-me o que havia acontecido perguntando: 
“Quer ver minhas cicatrizes”? Recusei ver seus ferimentos,  mas  perguntei-lhe o que havia passado em sua mente na ocasião do  assalto.  A primeira coisa que pensei foi que deveria ter  trancado a porta de trás, respondeu. Então, deitado no chão, ensangüentado, lembrei  que tinha duas escolhas:   “Poderia viver ou morrer”.  “Escolhi viver”! Você não estava com medo? Perguntei.     “Os para-médicos foram ótimos”.  “ Eles me diziam que tudo ia dar certo e  que ia ficar bom”. “Mas quando entrei na sala de emergência e vi a  expressão dos médicos e enfermeiras, fiquei apavorado”. Em seus lábios eu lia: “Esse aí já era”.  Decidi então que tinha que fazer algo. 
O que fez ? Perguntei. Bem  Havia uma enfermeira que fazia muitas  perguntas.   Perguntou-me se eu era alérgico a alguma coisa. Eu respondi: “sim”.   Todos pararam para ouvir a minha resposta. Tomei fôlego e gritei; “Sou alérgico a balas”! Entre risadas lhes disse:  “Eu estou escolhendo viver, operem-me como um  ser vivo, não como um morto”. Luis sobreviveu graças à persistência dos médicos…  mas sua atitude é que os fez agir dessa maneira. E com isso, aprendi que todos os dias, não importa  como eles sejam, temos sempre a opção de viver plenamente.   Afinal de contas :
“ATITUDE É TUDO”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário